Domingo, 30 de Outubro de 2011
O povo e os políticos

A contraposição entre “o povo” e “os políticos” é errada. Mais que nunca o que o nosso tempo exige é uma análise de classe da realidade social.

Espalhou-se por aí uma visão da sociedade que contrapõe o povo aos políticos. Nas redes sociais, nas conversas de transporte público, um pouco por toda a parte, a desgraça do povo é contraposta aos privilégios dos políticos. E essa contraposição termina invariavelmente na sentença de que é por causa dos políticos que o povo passa a provação que passa. Este senso comum merece três observações.

Primeira observação: sim, é verdade que o povo passa por uma provação inédita porque houve políticos que assim impuseram. Sim é verdade que é na política que está a responsabilidade das escolhas que nos conduziram aonde estamos. Mas houve dois lados nas escolhas, escolheu-se um caminho e recusou-se outro, houve uma maioria e uma minoria. Meter todos os políticos – os responsáveis pelos caminhos que nos levaram até aqui e os que a ele se opuseram em nome de alternativas que não foram escolhidas – não é só uma injustiça, é um branqueamento de quem não o merece.

Segunda observação: não confundamos condenação dos privilégios injustificados com desqualificação da política. Os privilégios injustificados são isso mesmo: privilégios e injustificados. Devem, por isso, ser extintos se forem privilégios e se forem injustificados. Tudo o mais é armadilha porque lhe subjaz uma estratégia, consciente ou não, de desqualificação da política que deixe o terreno livre para a mediocridade e que, mais que tudo, legitime a punição social generalizada. Como alguns têm lembrado, quanto mais os rendimentos de quem exerce cargos políticos for diminuído mais alento ganharão os que querem diminuir os salários e as pensões. Cair nessa armadilha só cai quem quer.

Terceira observação: a contraposição entre “o povo” e “os políticos” é errada. Mais que nunca o que o nosso tempo exige é uma análise de classe da realidade social. A contraposição que conta é entre os detentores do poder económico e os que de seu têm apenas a sua força de trabalho, braçal ou intelectual. “Os políticos” são apenas a voz do dono (ou a resistência a ela) dos donos de Portugal. E quanto mais se espalha a recriminação acrítica sobre a generalidade dos políticos, mais os donos de Portugal esfregam as mãos de contentes por não terem os holofotes da luta social a incidirem, como deviam, sobre eles.



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Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011
A revolta contra as "mordomias dos políticos"

Artigo de Daniel Oliveira (Expresso 25.Outubro)

 

Muito se tem falado das mordomias de políticos e ex-políticos. Os subsídios imorais que mantêm. A forma súbita como alguns enriquecem depois de saírem do governo. A revolta dos cidadãos com estes casos pode ser natural, positiva, perigosa, míope ou hipócrita. Ou tudo isto ao mesmo tempo.

É natural porque os mesmos que nos exigem sacrifícios, que roubam o 13º mês e o subsídio de férias aos funcionários públicos, que falam das "gorduras do Estado", que aumentam impostos e que, com as suas medidas, destroem o nosso futuro, se isentam sempre a si próprios de qualquer esforço.

É positiva porque revela que, apesar de tudo, as pessoas ainda têm a capacidade de se indignar com o que é indigno. Que ainda não desistiram deste País. Que não estão completamente anestesiadas.

É perigosa porque demasiadas vezes beneficia o infrator. Pondo todos os políticos no mesmo saco acaba por absolver quem se aproveita da política para interesse próprio. E muitas vezes alimenta e alimenta-se de um discurso contra o papel social e económico do Estado. Um poder político desacreditado é um poder político frágil. Os interesses privados agradecem a sua fraqueza.

É míope porque trata o sintoma como se fosse a doença. A nossa democracia foi sequestrada. Comprada pelo poder do dinheiro. O mais grave assalto ao que é de nós todos não são estas "curiosidades". Isto são trocos. Ele é evidente no tratamento fiscal de exceção à banca. Ou quando Ricardo Salgado se dirige à sede do governo horas antes de Pedro Passos Coelho apresentar o Orçamento. Ou nas Parecerias Público-Privado, sempre ruinosas para o Estado e lucrativas para quem dele se aproveita. Ou nos ministros que saltam de empresas para ministérios - para a saúde, Coelho hesitou entre Isabel Vaz, presidente do BES Saúde, e Paulo Macedo, fundador da Médis - e de ministérios para empresas - Jorge Coelho na Mota-Engil, Ferreira do Amaral na Lusoponte. Ou nos ex-políticos que se dedicam, depois de abandonarem as suas funções, ao tráfico de influências económicas junto do poder político. Ou nos financiamentos de empresários a partidos - apesar do financiamento público ser o bombo da festa, não se percebendo que o que se pouparia aí sairia muito mais caro nos favores que os "mecenas" receberiam em troca. Ou nas privatizações de monopólios a saldo que se preparam. Ou no financiamento público a colégios privados no mesmo momento em que se fazem cortes violentos na Escola Pública. Tudo sintomas da mesma coisa: um Estado que é refém do poder económico. A democracia roubada aos cidadãos. Não falta quem tenha bom remédio: menos Estado ou até menos democracia. É como dizer que a melhor forma de atacar um enfisema é arrancar o pulmão ao paciente.

É hipócrita porque muitos dos que se revoltam são os primeiros a demitir-se das suas obrigações de cidadão. Se há eleições, não votam porque "eles querem é poleiro". Se há uma greve, nem querem saber porque "a minha política é o trabalho". Se há um protesto, devemos é ficar quietos que isso nunca dá em nada. Indignados sem causa, comportam-se como clientes maldispostos. Como se a democracia fosse uma coisa de políticos. Como se não fossem elas próprias a ter de a defender. E, quando votam, não hesitam em eleger homens como Isaltino Morais ou Alberto João Jardim. A qualidade da nossa democracia é um espelho do que nós somos.

Ontem vi, no DocLisboa, um documentário sobre a revolta egípcia. No início, alguns dos que arriscaram a vida na Praça Tahrir queixavam-se da apatia e do medo da maioria dos seus compatriotas. Da sua mesquinhez. Da sua indiferença. Ao fim de trinta anos de ditadura e corrupção, foi preciso a crise bater à porta para que o povo se revoltasse. E, afinal, o que parecia improvável aconteceu. O poder desmoronou-se sem um tiro. Foi preciso que uns tarados corressem todos os riscos para que os restantes acordassem.

Na verdade, tudo era mais fácil ali do que numa democracia. Ali queriam conquistá-la. Aqui, temos de cuidar dela. Ali só havia esperança. Aqui há desencanto. Ali o inimigo tinha um nome. Aqui nem se sabe bem quem ele é. Mas num e noutro caso, nenhum poder corrupto sobrevive sem a demissão do seu povo. Acham que a nossa democracia foi capturada? Libertem-na! Não é preciso ficar à espera que apareça um salvador. Ele não existe. Só que para correr o risco de assumir uma posição é preciso empenhamento e compromisso. A saúde da nossa democracia não está à distância de um e-mail com muitos pontos de exclamação. Eles só servem de alguma coisa se corresponderem a um pouco mais. Felizmente, não faltam neste País heróis anónimos e generosos que nunca desistiram. No seu bairro, no seu local de trabalho, na sua associação, no seu sindicato. Esses, e não indignados inconsequentes (mesmo que cheios de razão), são a esperança da nossa democracia.

A revolta contra quem se serve da política para amealhar uns trocos é justa. Ainda mais em tempo de crise. Mas não é, não pode ser, um programa político. Falta-lhe o programa. Mas, acima de tudo, falta-lhe a política.

 



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Terça-feira, 25 de Outubro de 2011
Para acabar de vez com os mitos da crise

Se nalguma coisa a narrativa austeritária tem sido singularmente bem sucedida, é a disseminar e explorar o mito de que os países da periferia europeia viveriam acima das suas possibilidades por os seus trabalhadores trabalharem de menos e terem regalias a mais. Esta visão hegemónica foi abundantemente vendida aos eleitorados e opiniões públicas dos países do centro europeu, claro, mas tem também exercido grande influência na própria periferia. Acontece que é, simplesmente, mentira. Este post publicado no blogue da Real World Economics Review, que tem por base um exercício anterior de Kash Mansori, reúne cinco tabelas que mostram isso muito bem. É um conjunto de indicadores a que nós e outros já nos temos referido, mas que aqui se encontram convenientemente reunidos e resumem a questão de forma cristalina. As figuras falam por si, mostrando que, de uma forma geral, os trabalhadores da periferia europeia… 1) trabalham mais horas; 2) têm taxas de actividade idênticas ou mais elevadas (especialmente Portugal e Espanha); 3) no caso de Portugal e sobretudo da Grécia, apresentaram níveis de crescimento médio anual da produtividade do trabalho, entre 2000 e 2008, idênticos ou superiores aos do centro europeu; 4) registam níveis de despesas sociais per capita bastante mais reduzidos; e 5) apresentam um nível de despesas com pensões de reforma em percentagem do PIB (isto é, relativamente à capacidade da economia) idênticos aos do centro europeu; Ou seja, a narrativa hegemónica é uma rematada mentira de consumo fácil, destinada a persuadir as vítimas da espoliação de que "não há alternativa". Quanto à verdadeira história, resume-se nos seguintes pontos: 1) Uma perda de competitividade dos países da periferia europeia ao longo da última década que não se deveu à evolução da produtividade do trabalho mas sim à pertença a uma zona monetária perversa, com um euro sobrevalorizado face ao exterior e, no interior da zona euro, uma competição cerrada ao nível da compressão salarial promovida acima de tudo pela Alemanha... 2) …perda de competitividade essa que, ao longo da última década, provocou o gradual aumento do défice comercial e constrangeu o nível de actividade económica, com consequente perda de receitas fiscais (aumentando o défice orçamental)... 3) …a que se seguiu uma recessão mundial, de 2008 em diante, que implicou uma contracção dos mercados de exportação, com consequente aumento adicional do défice externo e contracção adicional da actividade económica, implicando uma perda adicional de receitas fiscais e um aumento dos gastos do estado por acção dos estabilizadores automáticos (como o subsídio de desemprego)… 4) …recessão mundial essa que incluiu uma crise bancária que esteve na origem da opção política pelo resgate público de bancos falidos em condições desastrosas (somando défice ao défice), aliás na sequência das gigantescas rendas que os estados vêm há muito, e por diversas vias, assegurando à banca… 5) …somando-se ainda ao desperdício obsceno de fundos públicos decorrente da captura do Estado por interesses rentistas, nomeadamente através das ruinosas “parcerias" público-privadas. Portanto: uma crise cujos fundamentos residem nas estratégias do capital centro-europeu; que foi despoletada por uma recessão mundial também ela decorrente do funcionamento do capitalismo financeirizado; e que se tornou insustentável devido ao desperdício acumulado do erário público em benefício de interesses rentistas nacionais, com a banca e os grandes grupos económicos à cabeça. E pela qual são os trabalhadores, pensionistas e classes populares a pagar - de uma forma nunca vista e, se não reagirmos à altura, permanente. Mais do que uma crise, é um gigantesco roubo. E temos todos a obrigação de lutar contra ele nas ruas, nos locais de trabalho… e nas mentes daqueles com quem falarmos.

Publicado no blogue "Ladrões de Bicicletas"



publicado por livrecomoovento às 18:38
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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011
Indiferente até chegar a minha vez...(?)

A indiferença

Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.

Bertolt Brecht

 

Começaram a dizer que o Estado está muito gordo e que era necessário cortar nas suas gorduras. Eu até achei muito bem, porque comecei a pensar nos carros de alta cilindrada, nos jantares faustosos, nas viagens inúteis, nas assessorias externas, no negócios dos submarinos, nas derrapagens orçamentais em obras públicas para beneficiar os amigos, nas Fundações para dar emprego aos correligionários do partido, nas nomeações de juristas, consultores, assessores, secretários e subsecretários, na acumulação de pensões milionárias, nos ordenados indecentes, …; e confesso que concordei.

Ouvi falar que há gente a viver acima das suas possibilidades, e logo me lembrei das mansões de luxo de banqueiros e gestores, com piscinas e campos de ténis, de executivos com vários carros e diversos condutores ao serviço, fatinhos de marca e por medida, iates de recreio para reuniões especiais, suites de hotel com serviço completo; e pensei que, finalmente, alguém iria pôr cobro a este regabofe que leva grande parte dos nossos depauperados recursos.

Começaram a dizer que era necessário reduzir pessoal e cortar nas remunerações dos funcionários públicos; e eu, que desesperava sempre que me dirigia a um serviço público, ainda por cima, para pagar para aqueles malandros terem um ordenado e estarem na conversa, pensei para comigo que era bem feito e senti-me vingado pelo tempo que perdi em longas esperas, antes de ser atendido.

Ouvi agora numa entrevista que estas medidas começaram pela Função Pública, mas vão estender-se, também, à esfera dos privados, e senti-me invadir por um tremendo pavor. Fui abalado na minha indiferença. Como é que eu vou poder continuar a pagar a prestação da casa? Onde vou buscar dinheiro para pagar os estudos dos meus filhos? E se tenho uma doença mais grave e necessitar de dinheiro para me tratar? E agora que vai subir a electricidade e o gás, a água e os transportes?

Começo a perceber que o que passou pelos outros também me vai chegar, mas de forma muito mais dura e não tenho ninguém para me socorrer.

Cortaram em alguma gordura do Estado? Não! Cortaram nos apoios sociais a quem já tem deficientes condições de vida, mas distribuíram dividendos aos accionistas do bancos e nem lhes cobraram impostos. Cortaram nas verbas para a saúde, mas enterraram milhões, pagando às administrações incompetentes que levaram à falência técnica os chamados Hospitais Empresa. Cortaram nos orçamentos para a educação, mas aumentaram os subsídios para as escolas privadas.

Foi implementado algo de concreto para obviar a gastos acima das nossas possibilidades? Não! Continuam a esbanjar dinheiro com o supérfluo e a manter as mordomias dos privilegiados.

Reduziram gastos com a malandragem que oscila entre cargos governativos, administração de empresas públicas e bancos, constando apenas o seu nome, mas trabalho, nada? Não! Pelo contrário, congelaram e reduziram remunerações dos funcionários públicos que ganham como eu, mas continuam a pagar fortunas aos gestores das empresas públicas e prémios de produtividade a quem sucessivamente traz colossais prejuízos para o Estado.

Dispensaram os parasitas que costumam polir as cadeiras ergonómicas em pele dos gabinetes de luxo? Não! Vão juntar Institutos e Fundações para reduzir pessoal. Isso mesmo: pessoal, porque os gestores vão ter o seu lugar assegurado, mesmo que seja fazendo coisa nenhuma. Quem vai para o desemprego são os que, como eu, trabalham nessas instituições.

E, agora que chegou a minha vez?

Vou insultá-los e enterrar a cabeça na areia à espera que nas próximas eleições prometam ter mais dó de mim, mesmo que depois não cumpram?



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Domingo, 23 de Outubro de 2011
Bando de Mentirosos

Vasco Lourenço diz que o poder foi tomado por "um bando de mentirosos"

Depois de rever na internet as imagens das promessas eleitorais de Passos Coelho, o capitão de Abril diz que se "sente roubado" e prevê "convulsão social" para travar "o PREC de direita" que se está a criar. Foi à saída duma reunião que juntou mil militares e convocou uma concentração em Lisboa para o dia 12 de Novembro.
Vasco Lourenço diz-se indignado com as mentiras de Passos Coelho. Foto Luis Miguel Martins/Flickr
Vasco Lourenço diz-se indignado com as mentiras de Passos Coelho

O auditório do ISCTE foi pequeno para os cerca de mil militares que ali vieram discutir acções de protesto contra a austeridade. Os militares marcaram uma concentração para dia 12, no Rossio, e esperam muitos milhares para protestar contra "a redução das remunerações, aliada aos cortes dos subsídios de férias e de Natal e ao aumento generalizado dos impostos", que está a "atirar muitos" militares para "o limiar da impossibilidade de cumprir com os compromissos financeiros assumidos".

Na moção aprovada no encontro, os militares presentes mandataram as direcções das suas associações (de praças, oficiais e sargentos) "para levarem a cabo as iniciativas necessárias para a defesa dos seus interesses socio-profissionais e das Forças Armadas".

À saída deste encontro, Vasco Lourenço, citado pela agência Lusa, afirmou que estava "absolutamente indignado" após ter visto um vídeo na internet com declarações de Passos Coelho em campanha eleitoral que contradizem o que está a fazer enquanto primeiro-ministro. É "preciso desmascarar os indivíduos que ocupam o poder" e que "o estão a roubar", declarou o capitão de Abril, sublinhando que se "sente roubado" e que Passos  "renega nos actos tudo aquilo que acabou de dizer há muito pouco tempo".

Vasco Lourenço diz que as medidas de austeridade impostas estão a criar um "PREC de direita". "Não me venham dizer que a reacção de não aceitar este tipo de situação é que será uma revolução. Não, não vou por aí", sublinhou.

O presidente da Associação Nacional de Sargentos, Lima Coelho, afirmou à Lusa que os militares estão disponíveis para "todos os sacrifícios", mas "não estão disponíveis para serem sacos de pancada", nem para serem "enxovalhados ou usados politicamente de forma que não merecem ser usados".



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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011
Tudo tem um fim - Chegou a vez do capitalismo

Wallerstein: o capitalismo chegou ao fim da linha

A crise actual não é de curta duração: é o grande desabamento de um sistema. Resta saber o que vai suceder-lhe, diz Immanuel Wallerstein
Wallerstein: Vivemos um período no qual quase tudo é relativamente imprevisível a curto prazo

A entrevista durou pouco mais de onze minutos, mas alimentará horas de debates em todo o mundo e certamente ajudará a observar melhor o período tormentoso em que vivemos. Aos 81 anos, o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein acredita que o capitalismo chegou ao fim da linha: já não pode mais sobreviver como sistema. Mas – e aqui começam as provocações – o que surgirá no seu lugar pode ser melhor (mais igualitário e democrático) ou pior (mais polarizado e explorador) do que temos hoje em dia.

Estamos, pensa este professor da Universidade de Yale e personagem assíduo dos Fóruns Sociais Mundiais, no meio de uma bifurcação, um momento histórico único nos últimos 500 anos. Ao contrário do que pensava Karl Marx, o sistema não sucumbirá num acto heróico. Desabará sobre suas próprias contradições. Mas atenção: diferente de certos críticos do filósofo alemão, Wallerstein não sugere que as acções humanas são irrelevantes.

Ao contrário: para ele, vivemos o momento preciso em que as acções colectivas, e mesmo individuais, podem causar impactos decisivos sobre o destino comum da humanidade e do planeta. Ou seja, as nossas escolhas realmente importam. “Quando o sistema está estável, é relativamente determinista. Mas, quando passa por uma crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante.”

É no emblemático 1968, referência e inspiração de tantas iniciativas contemporâneas, que Wallerstein situa o início da bifurcação. Lá se teria quebrado “a ilusão liberal que governava o sistema-mundo”. Abertura de um período em que o sistema hegemónico começa a declinar e o futuro se abre a rumos muito distintos, as revoltas daquele ano seriam, na opinião do sociólogo, o facto mais potente do século passado – superiores, por exemplo, à revolução soviética de 1917 ou a 1945, quando os EUA emergiram com grande poder mundial.

As declarações foram colhidas no dia 4 de Outubro pela jornalista Sophie Shevardnadze:

Há exatamente dois anos, disse ao RT que o colapso real da economia ainda demoraria alguns anos. Esse colapso está a acontecer agora?

Não, ainda vai demorar um ano ou dois, mas está claro que essa quebra está a chegar.

Quem está em maiores dificuldades: os Estados Unidos, a União Europeia ou o mundo todo?

Na verdade, o mundo todo vive problemas. Os Estados Unidos e União Europeia, claramente. Mas também acredito que os chamados países emergentes, ou em desenvolvimento – Brasil, Índia, China – também vão enfrentar dificuldades. Não vejo ninguém em situação tranquila.

Está a dizer que o sistema financeiro está claramente falido. O que há de errado com o capitalismo contemporâneo?

Essa é uma história muito longa. Na minha visão, o capitalismo chegou ao fim da linha e já não pode sobreviver como sistema. A crise estrutural que atravessamos começou há bastante tempo. No meu ponto de vista, por volta dos anos 1970 – e ainda vai durar mais uns vinte, trinta ou quarenta anos. Não é uma crise de um ano, ou de curta duração: é o grande desabamento de um sistema. Estamos num momento de transição. Na verdade, na luta política que acontece no mundo — que a maioria das pessoas se recusa a reconhecer — não está em questão se o capitalismo sobreviverá ou não, mas o que vai suceder-lhe. E é claro: podem existir dois pontos de vista extremamente diferentes sobre o que deve tomar o lugar do capitalismo.

Qual é a sua visão?

Eu gostaria de um sistema relativamente mais democrático, mais relativamente igualitário e moral. Essa é uma visão, nós nunca tivemos isso na história do mundo – mas é possível. A outra visão é de um sistema desigual, polarizado e explorador. O capitalismo já é assim, mas pode advir um sistema muito pior que ele. É como vejo a luta política que vivemos. Tecnicamente, significa a bifurcação de um sistema.

Então, a bifurcação do sistema capitalista está directamente ligada aos caos económico?

Sim, as raízes da crise são, de muitas maneiras, a incapacidade de reproduzir o princípio básico do capitalismo, que é a acumulação sistemática de capital. Esse é o ponto central do capitalismo como sistema, e funcionou perfeitamente bem por 500 anos. Foi um sistema muito bem sucedido no que se propõe a fazer. Mas desfez-se, como acontece com todos os sistemas.

Esses tremores económicos, políticos e sociais são perigosos? Quais são os prós e contras?

Se pergunta se os tremores são perigosos para você e para mim, então a resposta é sim, são extremamente perigosos para nós. Na verdade, num dos livros que escrevi, chamei-os de “inferno na terra”. É um período no qual quase tudo é relativamente imprevisível a curto prazo – e as pessoas não podem conviver com o imprevisível a curto prazo. Podemos ajustar-nos ao imprevisível no longo prazo, mas não com a incerteza sobre o que vai acontecer no dia seguinte ou no ano seguinte. Não se sabe o que fazer, e é basicamente o que estamos a ver no mundo da economia hoje. É uma paralisia, pois ninguém está a investir, já que ninguém sabe se daqui a um ano ou dois vai ter esse dinheiro de volta. Quem não tem certeza de que em três anos vai receber o seu dinheiro, não investe – mas não investir torna a situação ainda pior. As pessoas não sentem que têm muitas opções, e têm razão, as opções são escassas.

Então, estamos nesse processo de abalos, e não existem prós ou contras, não temos opção, a não ser estar nesse processo. Vê uma saída?

Sim! O que acontece numa bifurcação é que, nalgum momento, pendemos para um dos lados, e voltamos a uma situação relativamente estável. Quando a crise acabar, estaremos num novo sistema, que não sabemos qual será. É uma situação muito optimista no sentido de que, na situação em que nos encontramos, o que eu e você fizermos realmente importa. Isso não acontece quando vivemos num sistema que funciona perfeitamente bem. Nesse caso, investimos uma quantidade imensa de energia e, no fim, tudo volta a ser o que era antes.

Um pequeno exemplo. Estamos na Rússia. Aqui aconteceu uma coisa chamada Revolução Russa, em 1917. Foi um enorme esforço social, um número incrível de pessoas colocou muita energia nisso. Fizeram coisas incríveis, mas no final, onde está a Rússia, em relação ao lugar que ocupava em 1917? Em muitos aspectos, está de volta ao mesmo lugar, ou mudou muito pouco. A mesma coisa poderia ser dita sobre a Revolução Francesa.

O que isso diz sobre a importância das escolhas pessoais?

A situação muda quando se está numa crise estrutural. Se, normalmente, muito esforço se traduz em pouca mudança, nessas situações raras um pequeno esforço traz um conjunto enorme de mudanças – porque o sistema, agora, está muito instável e volátil. Qualquer esforço leva a uma ou outra direcção. Às vezes, digo que essa é a “historização” da velha distinção filosófica entre determinismo e livre-arbítrio. Quando o sistema está relativamente estável, é relativamente determinista, com pouco espaço para o livre-arbítrio. Mas, quando está instável, passando por uma crise estrutural, o livre-arbítrio torna-se importante. As acções de cada um realmente importam, de uma maneira que não se viu nos últimos 500 anos. Este é o meu argumento básico.

Sempre apontou Karl Marx como uma de suas maiores influências. Acredita que ele ainda seja tão relevante no século XXI?

Bem, Karl Marx foi um grande pensador no século XIX. Ele teve todas as virtudes, com as suas ideias e percepções, e todas as limitações, por ser um homem do século XIX. Uma das suas grandes limitações é que ele era um economista clássico demais, e era determinista demais. Viu que os sistemas tinham um fim, mas achou que esse fim se dava como resultado de um processo de revolução. Eu estou a sugerir que o fim é reflexo de contradições internas. Todos somos prisioneiros de nosso tempo, disso não há dúvidas. Marx foi um prisioneiro do facto de ter sido um pensador do século XIX; eu sou prisioneiro do facto de ser um pensador do século XX.

Do século 21, agora.

É, mas eu nasci em 1930, eu vivi 70 anos no século XX, sinto que sou um produto do século XX. Isso provavelmente revela-se como limitação no meu próprio pensamento.

Quanto – e de que maneiras – esses dois séculos diferem? São realmente tão diferentes?

acredito que sim. Acredito que o ponto de viragem deu-se por volta de 1970. Primeiro, pela revolução mundial de 1968, que não foi um evento sem importância. Na verdade, considero-o o evento mais significantes do século XX. Mais importante que a Revolução Russa e mais importante que os Estados Unidos terem-se tornado o poder hegemónico, em 1945. Porque 1968 quebrou a ilusão liberal que governava o sistema mundial e anunciou a bifurcação que viria. Vivemos, desde então, na esteira de 1968, em todo o mundo.

Disse que vivemos a retomada de 68 desde que a revolução aconteceu. As pessoas às vezes dizem que o mundo ficou mais valente nas últimas duas décadas. O mundo ficou mais violento?

Eu acho que as pessoas sentem um desconforto, embora ele talvez não corresponda à realidade. Não há dúvidas de que as pessoas estavam relativamente tranquilas quanto à violência em 1950 ou 1960. Hoje têm medo e, em muitos sentidos, têm o direito de sentir medo.

Acredita que, com todo o progresso tecnológico, e com o facto de gostarmos de pensar que somos mais civilizados, não haverá mais guerras? O que isso diz sobre a natureza humana?

Significa que as pessoas estão prontas para serem violentas em muitas circunstâncias. Somos mais civilizados? Não sei. Esse é um conceito dúbio, primeiro porque o civilizado causa mais problemas que o não civilizado; os civilizados tentam destruir os bárbaros, não são os bárbaros que tentam destruir os civilizados. Os civilizados definem os bárbaros: os outros são bárbaros; nós, os civilizados.

É isso que vemos hoje? O Ocidente a tentar ensinar os bárbaros de todo o mundo?

É o que vemos há 500 anos.



publicado por livrecomoovento às 00:58
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Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011
SEM PALAVRAS

AQUI VOS DEIXO ALGUNS EXEMPLOS DE DÚVIDAS QUE O TRIBUNAL DE CONTAS ENCONTROU NAS DESPESAS PÚBLICAS…


 

1.      ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DE SAÚDE DO ALENTEJO, I. P.

- Aquisição de 1 armário persiana; 2 mesas de computador; 3 cadeiras c/rodízios, braços e costas altas: 97.560,00€

Eu não sei a quanto está o metro cúbico de material de escritório mas ou estes armários/mesas/cadeiras são de ouro sólido ou então não estou a ver onde é que 6 peças de mobiliário de escritório custam quase 100 000€.

Alguém me elucida sobre esta questão?


 

2.      MATOSINHOS HABIT – MH

– Reparação de porta de entrada do edifício: 142.320,00 €

Alguém sabe de que é feita esta porta que custa mais do que uma casa?

 

3.      UNIVERSIDADE DO ALGARVE – ESC. SUP. TECNOLOGIA – PROJECTO TEMPUS

– Viagem aérea Faro/Zagreb e regresso a Faro, para 1 pessoa no período de 3 a 6 de Dezembro de 2008: 33.745,00 €

Segundo o site da TAP a viagem mais cara que se encontra entre Faro-Zagreb-Faro em classe executiva é de cerca de 1700€. Dá uma pequena diferença de 32 000 €. Como é que é possível???

 

4.      MUNICÍPIO DE LAGOA

– 6 Kit de mala Piaggio Fly para as motorizadas do sector de águas: 106.596,00 €

Pelo vistos fazer um “Pimp My Ride” nas motorizadas do Município de Lagoa fica carote!!!

 

5.      MUNICÍPIO DE ÍLHAVO

– Fornecimento de 3 Computadores, 1 impressora de talões, 9 fones, 2 leitores ópticos: 380.666,00 €

Estes computadores devem ser mesmo especiais para terem custado cerca de 100 000€ cada….Já para não falar nos restantes acessórios.

 

6.      MUNICÍPIO DE LAGOA

– Aquisição de fardamento para a fiscalização municipal: 391.970,00€

Eu não sei o que a Polícia Municipal de Lagoa veste, mas pelos vistos deve ser Haute-Couture.

 

7.      CÂMARA MUNICIPAL DE LOURES

– VINHO TINTO E BRANCO: 652.300,00 €

Alguém me explica porque é que a Câmara Municipal de Loures precisa de mais de meio milhão de Euros em Vinho Tinto e Branco????

 

8.      MUNICIPIO DE VALE DE CAMBRA

– AQUISIÇÃO DE VIATURA LIGEIRO DE MERCADORIAS: 1.236.000,00 €

Neste contrato ficamos a saber que uma viatura ligeira de mercadorias da Renault custa cerca de 1 milhão de Euros. Impressionante…

 

9.      CÂMARA MUNICIPAL DE SINES

– Aluguer de tenda para inauguração do Museu do Castelo de Sines: 1.236.500,00 €

É interessante perceber que uma tenda custa mais ou menos o mesmo que um ligeiro de mercadorias da Renault e muito mais que uma boa casa... E eu que estava a ser tão injusto com o município de Vale de Cambra…

 

10.  MUNICIPIO DE VALE DE CAMBRA

– AQUISIÇÃO DE VIATURA DE 16 LUGARES PARA TRANSPORTE DE CRIANÇAS: 2.922.000,00 €

E mais uma pérola do Município de Vale de Cambra: uma viatura de 16 lugares para transportar crianças custa cerca de 3 milhões de Euros. Upsss, outra vez o município de Vale de Cambra…

 

11.  MUNICÍPIO DE BEJA

– Fornecimento de 1 fotocopiadora, “Multifuncional do tipo IRC3080I”, para a Divisão de Obras Municipais: 6.572.983,00 €

Este contrato público é um dos mais vergonhosos que se encontra neste site. Uma fotocopiadora que custa normalmente 7,698.42€ foi comprada por mais de 6,5 milhões de Euros. E ninguém vai preso por porcarias como esta?

 

COMO É POSSÍVEL NÃO ESTARMOS EM CRISE?

É DIFÍCIL CORTAR NAS DESPESAS PÚBLICAS…

NOTA-SE…

ACABÁMOS DE VER ALGUNS EXEMPLOS…



publicado por livrecomoovento às 01:46
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Sábado, 15 de Outubro de 2011
Mais do mesmo para quê?

Rita Calvário - Engª Agrónoma

Mais medidas de austeridade que repetem uma receita já bem conhecida. Uma receita que não cura a doença, mas agrava-a. A Grécia exemplifica bem como esta cura é, ela própria, a doença.

 

No dia 13 de Outubro foi apresentada a antevisão do Orçamento de Estado. Mais medidas de austeridade que repetem uma receita já bem conhecida. Uma receita que não cura a doença, mas agrava-a. Sabemo-lo desde o PEC1: a economia está pior, o desemprego agrava-se, a pobreza aumenta e o endividamento cresce, numa espiral sem fim. A Grécia exemplifica bem como esta cura é, ela própria, a doença. Mas mesmo perante todas as evidências, o Governo continua a aumentar as doses do medicamento.

O problema é que o medicamento não actua sobre as causas da doença nem sequer acerta no doente. As causas são uma dívida que deveria ser conhecida através de uma auditoria para saber o que é legítimo pagar e que deveria ser renegociada nos seus termos para que seja compatível com a economia. O doente é um sistema financeiro que especula e não apoia a economia e promove a fuga de capitais, é uma elite económica que continua encostada ao Estado através de parcerias público-privadas que promovem o endividamento e que continua a lucrar e a acumular riqueza sem pagar impostos justos e é uma economia destruída que pouco produz e não gera emprego.

O problema é que o medicamento ataca todo o sistema que poderia curar a doença. Ataca o poder de compra reduzindo salários e pensões, seja por via directa (congelamento, fim ou redução dos subsídios de férias e natal, aumento do horário de trabalho sem remuneração), seja pelo aumento dos impostos sobre o consumo e os rendimentos do trabalho, piorando a economia, criando desemprego, reduzindo as receitas públicas, agravando o endividamento. Ataca a capacidade do Estado intervir em sectores vitais e estruturais da economia com a privatização de bens e serviços estratégicos e/ou que são monopólios naturais, como é o caso das águas, dos correios, dos serviços de transporte, agravando as condições (pior qualidade, desigualdade territorial) e os custos do seu acesso (tarifas elevadas ou rendas públicas garantidas). Ataca todas as conquistas do Estado social, agravando os desequilíbrios na repartição dos rendimentos e alargando o fosso entre ricos e pobres, criando rupturas nos serviços públicos que são essenciais ao progresso social e económico, como a educação e a saúde, rasgando o contrato social que protege o elo mais frágil da economia, generalizando a precariedade do trabalho e da vida.

O aumento do horário de trabalho sem remuneração é exemplificativo do absurdo. Perante o desemprego crescente e quando os custos do trabalho são uma ínfima parte dos custos das empresas, até porque os salários são baixos, faz algum sentido aumentar o horário de trabalho? É mais do mesmo modelo económico apoiado em salários baixos e na crescente precariedade que a economia e a vida dos cidadãos melhora?

Este medicamento não serve e deve ser posto de lado. No dia 15 de Outubro, no país e em várias cidades do mundo, é a voz da cidadania que sai à rua para rejeitar este tipo de políticas que têm intoxicado a economia e a vida da larga maioria das pessoas. Aqui como noutros pontos do mundo, apela-se aos 99% da população estão fartos de receitas falhadas e de placebos inúteis que só têm servido para engordar os 1% que criaram a crise e dela se alimentam. É tempo dos 99% dizerem basta, todos os dias que forem necessários para que a sua voz conte e mostrando que todos juntos somos fortes.



publicado por livrecomoovento às 10:38
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Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011
Erros Cratos

Por Rodrigo Rivera

A proposta do Ministro é a destruição da Escola Pública. Eu não aceito, e tu?

Pela primeira vez desde 2006, um ano depois do primeiro grande corte de Sócrates ao Orçamento do Ensino Superior, o número de candidatos diminui. E não foi pouco: 10,5% menos alunos decidiram continuar os estudos para um nível superior. Vários motivos são possíveis, desde a quase ausência de informação sobre apoios sociais fora dos centros urbanos, à perspectiva de um emprego tão precário como outro qualquer, mesmo com o diploma.

Mas convém lembrar dois aspectos estruturais que são um obstáculo ao acesso democrático ao Ensino Superior:

1. O valor das propinas em Portugal é o 3º mais caro numa Europa com vários países com Educação gratuita em todos os níveis. Portugal tem dos salários médios mais baixos da Europa, mas é o país da OCDE em que as famílias mais têm de investir em Educação.

2. O ano passado 20 mil alunos perderam a bolsa ou viram-na reduzida devido ao renovado regulamento de bolsas do Governo PS. Este ano, algumas alterações foram feitas, em teoria, alegadamente para responder às reivindicações dos estudantes que se manifestaram o ano passado. Na prática, percebe-se a diferença nula: Nuno Crato já disse que a verba para as bolsas mantém-se nos 130 milhões de euros, maioria paga com fundos europeus. Isto quer dizer, obviamente, que nada mudou. Quem perdeu o ano passado continua a perder este ano.

A acrescentar a estes "detalhes" da agenda de Nuno Crato, o Ministro decidiu fazer um dos maiores cortes da história do Ensino Superior, numa altura em que as Universidades já se queixavam de dificuldades orçamentais: 11,2% a menos, que os reitores terão de "inventar" para pagar electricidade, salários de docentes e funcionários não-docentes, etc. Segundo notícias recentes, quase metade dos docentes do Ensino Superior podem estar em risco de não ver o seu contrato renovado por falta de verba.

A autonomia, conceito deturpado pelo neoliberalismo, serve para justificar tudo. Agora, as Universidades terão a "autonomia" para despedir professores, aumentar propinas, vender a Universidade aos poucos para conseguir sobreviver à histérica austeridade de Nuno Crato.

Neste momento, já sabemos que o Ministro vai cortar 600 milhões de euros no Orçamento da Escola Pública. A Troika, que propunha, num país que tem das taxas mais baixas de licenciados da Europa, um corte de uns "míseros" 195 milhões de euros a menos. O apoio às escolas privadas, este, aumentará em nome da "liberdade de escolha", paga pelos contribuintes. O que Crato propõe é uma escola privada para poucos, subsidiada por todos, e uma Escola Pública miserável.



publicado por livrecomoovento às 10:37
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Domingo, 9 de Outubro de 2011
O CAPITALISMO TEM PÉS DE BARRO

A maior lavandaria de dinheiro do mundo ameaça falir!
(por Rolando Cardoso)

A Suíça estremece.
Zurique alarma-se.
Os belos bancos, elegantes, silenciosos de Basileia e Berna estão ofegantes.
Poderia dizer-se que eles estão assistindo na penumbra a uma morte ou estão
velando um moribundo.

Esse moribundo, que talvez acabe mesmo morrendo, é o segredo bancário suíço.
O ataque veio dos Estados Unidos, em acordo com o presidente Obama.
O primeiro tiro de advertência foi dado na quarta-feira.
A UBS - União de Bancos Suíços, gigantesca instituição bancária suíça viu-se
obrigada a fornecer os nomes de 250 clientes americanos por ela ajudados
para defraudar o fisco.

O banco protestou, mas os americanos ameaçaram retirar a sua licença nos
Estados Unidos.

Os suíços, então, passaram os nomes.
E a vida bancária foi retomada tranquilamente.
Mas, no fim da semana, o ataque foi retomado.
Desta vez os americanos golpearam forte, exigindo que a UBS forneça o nome
dos seus 52.000 clientes titulares de contas ilegais!

O banco protestou.
A Suíça está temerosa.
O partido de extrema-direita, UDC (União Democrática do Centro), que detém
um terço das cadeiras no Parlamento Federal, propõe que o segredo bancário
seja inscrito e ancorado pela Constituição federal.

Mas como resistir?
A União de Bancos Suíços não pode perder sua licença nos EUA, pois é nesse
país que aufere um terço dos seus benefícios.

Um dos pilares da Suíça está sendo sacudido.
O segredo bancário suíço não é coisa recente.
Esse dogma foi proclamado por uma lei de 1934, embora já existisse desde 1714.
No início do século 19, o escritor francês Chateaubriand escreveu que neutros nas
grandes revoluções nos Estados que os rodeavam, os suíços enriqueceram à custa
da desgraça alheia e fundaram os bancos em cima das calamidades humanas.

Acabar com o segredo bancário será uma catástrofe económica.
Para Hans Rudolf Merz, presidente da Confederação Helvética, uma falência da União
de Bancos Suíços custaria 300 biliões de francos suíços ou 201 milhões de dólares.

E não se trata apenas do UBS.
Toda a rede bancária do país funciona da mesma maneira.
O historiador suíço Jean Ziegler, que há mais de 30 anos denuncia a imoralidade
helvética, estima que os banqueiros do país, amparados no segredo bancário, fazem
frutificar três triliões de dólares de fortunas privadas estrangeiras, sendo que os
activos estrangeiros chamados institucionais, como os fundos de pensão, são
nitidamente minoritários.

Ziegler acrescenta ainda que se calcula em 27% a parte da Suíça no conjunto dos
mercados financeiros offshore" do mundo, bem à frente de Luxemburgo, Caribe ou o
extremo Oriente.

Na Suíça, um pequeno país de 8 milhões de habitantes, 107 mil pessoas trabalham
em bancos.

O manejo do dinheiro na Suíça, diz Ziegler, reveste-se de um carácter sacramental.
Guardar, recolher, contar, especular e ocultar o dinheiro, são todos actos que se
revestem de uma majestade ontológica, que nenhuma palavra deve macular e realizam-se
em silêncio e recolhimento...

Onde param as fortunas recolhidas pela Alemanha Nazi?
Onde estão as fortunas colossais de ditadores como Mobutu do Zaire, Eduardo dos
Santos de Angola, dos Barões da droga Colombiana, Papa-Doc do Haiti, de Mugabe
do Zimbabwe e da Máfia Russa?

Quantos actuais e ex-governantes, presidentes, ministros, reis e outros instalados no
poder, até em cargos mais discretos como Presidentes de Municípios têm chorudas
contas na Suíça?

Quantas ficam eternamente esquecidas na Suíça, congeladas, e quando os titulares
das contas morrem ou caem da cadeira do poder, estas tornam-se impossíveis de
alcançar pelos legítimos herdeiros ou pelos países que indevidamente espoliaram?

Porquê após a morte de Mobutu, os seus filhos nunca conseguiram entrar na Suíça?
Tudo lá ficou para sempre e em segredo...
Agora surge um outro perigo, depois do duro golpe dos americanos.
Na mini cúpula europeia que se realizou em Berlim, (em preparação ao encontro do
G-20 em Londres), França, Alemanha e Inglaterra (o que foi inesperado) chegaram a
um acordo no sentido de sancionar os paraísos fiscais.

"Precisamos de uma lista daqueles que recusam a cooperação internacional",
vociferou a chanceler Angela Merkel.

No domingo, o encarregado do departamento do Tesouro britânico Alistair Darling,
apelou aos suíços para se ajustarem às leis fiscais e bancárias europeias.

Vale observar, contudo, que a Suíça não foi convidada para participar do G-20
de Londres, quando serão debatidas as sanções a serem adoptadas contra os
paraísos fiscais.

Há muito tempo se deseja o fim do segredo bancário. Mas até agora, em razão da
prosperidade económica mundial, todas as tentativas eram abortadas.

Hoje, estamos em crise.
Viva a crise!!!
Barack Obama, quando era senador, denunciou com perseverança a imoralidade
desses remansos de paz para o dinheiro corrompido.

Hoje ele é presidente.
É preciso acrescentar que os Estados Unidos têm muitos defeitos, mas a fraude
fiscal sempre foi considerada um dos crimes mais graves no país.

Nos anos 30, os americanos conseguiram laçar Al Capone.
Sob que pretexto?
Fraude fiscal.
Para muito breve, a queda do império financeiro suíço!


publicado por livrecomoovento às 21:43
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