Terça-feira, 30 de Julho de 2013
O CISCO A ENCOBRIR A TRAVE
VIRIATO SOROMENHO-MARQUES

Dívida sem perdão

por VIRIATO SOROMENHO-MARQUES

A prestigiada revista Nature (ver artigo de Filomena Naves, no DN de 25 de julho) alertou para a "bomba-relógo" representada para o clima e para a economia mundiais pelo iminente colapso parcial do "permafrost" dos fundos marinhos do oceano Ártico, agora exposto ao aquecimento da coluna de água exposta à radiação solar, devido ao degelo das massas de gelo flutuantes. Com isso poderão ser libertados para a atmosfera 50 mil milhões de toneladas de metano, cujo efeito de estufa é vinte vezes mais intenso do que o do dióxido de carbono. E não ficamos por aqui. Estudos sobre o comportamento dos oceanos mostram que a maior parte do calor associado às alterações climáticas está a ser absorvido pelos mares, e que, com uma alta probabilidade, ele será devolvido, parcialmente, à atmosfera, dentro de alguns anos, aumentando, assim, de modo brusco, a temperatura média à superfície do planeta. Por outro lado, a investigação sobre a criosfera, em particular na Gronelândia, revela-nos um processo muito acelerado de desagregação dos glaciares, que provocará, se se confirmar, uma subida, muito mais rápida do que o previsto, do nível médio do mar, tornando o litoral numa zona ameaçada pelo aumento da erosão e da intrusão marinha, danificando as infraestruturas costeiras. Enquanto andamos entretidos com bagatelas como a "dívida soberana", encolhemos os ombros à destruição acelerada da habitabilidade deste planeta que tratamos como se fosse um de entre muitos, e não a única casa onde os nossos filhos poderão sobreviver na solidão do infinito cósmico. A dívida soberana poderá ser reestruturada e amenizada. A dívida ambiental, do futuro que estamos a deixar roubar aos mais jovens, e aos que ainda não nasceram, essa, não tem perdão.



publicado por livrecomoovento às 09:15
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Domingo, 28 de Julho de 2013
QUANDO OS COMENTADORES DE DIREITA ESCREVEM ASSIM...
PEDRO MARQUES LOPES

Agora é que vai ser

por PEDRO MARQUES LOPES

1. O governo pequeno e enxuto, aquele que ia provar que todos os governos anteriores eram grandes e despesistas, não correu bem.

Foi assim: uns rapazes leram umas coisas numas contracapas duns livros sobre Estados pequenos e fortes, confundiram aquilo tudo e pensaram que se criassem uns superministérios e fizessem muita força ia tudo funcionar às mil maravilhas. O próprio Estado, por artes mágicas, ficava mais maneirinho. Entretanto parou-se o funcionamento dos ministérios durante meses. Perdeu-se muito tempo e muito dinheiro. Agora voltamos aos anteriormente chamados governos grandes e despesistas e vai ter de se começar tudo de novo. Estamos perante uma situação que merece um estudo académico aprofundado: o caso de meia dúzia de deslumbrados que andaram a brincar aos governos durante a mais grave crise dos últimos anos. Mas agora é que vai ser.

2. Durante dois anos não se conseguiu atingir uma meta, nem acertar uma previsão. Nem consolidação orçamental, nem reforma do Estado, nem reformas estruturais, nem austeridade nos sítios certos. Mas tivemos desemprego, recessão, emigração e impostos com fartura.

O principal executor da política prosseguida, o que aplicou a receita além da troika, o que pôs no terreno aquele que seria o programa do Governo mesmo que não houvesse memorando, foi-se embora dizendo que o plano estava errado e que Passos Coelho tinha problemas de liderança. O primeiro-ministro e a ministra das Finanças - a senhora com problemas de memória que é uma espécie de Gaspar de antes da carta de demissão - passaram as duas últimas semanas a dizer que a estratégia que tudo tem destruído é para manter e é-nos afiançado que uns pozinhos de perlimpimpim transformaram Passos Coelho num líder.

Ao mesmo tempo, os membros do Governo patrocinados pelo outro primeiro-ministro lançam foguetes anunciando que agora vai ser crescimento económico até fartar e investimento a rodos. De que forma é que se esqueceram de dizer.



publicado por livrecomoovento às 12:24
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Segunda-feira, 22 de Julho de 2013
O BOBO DA CORTE

 “… divertia o rei e os áulicos. Declamava poesias, dançava, tocava algum instrumento e era o cerimoniário das festas. De maneira geral era inteligente, atrevido e sagaz. Dizia o que o povo gostaria de dizer ao rei e zombava da corte. Com ironia mostrava as duas faces da realidade, revelando as discordâncias íntimas e expondo as ambições do rei...”

(Definição Wikipedia)

Escrevo num momento em que não sei qual será o teor da comunicação de Cavaco ao país. No entanto, tendo em conta que já nos habituou à sua veia de criador, tudo é de esperar. Os comentadores de serviço estão baralhados e, embora apontem apenas três soluções possíveis – manter tudo como está, aceitar a remodelação proposta ou convocar eleições antecipadas – limitam o leque às duas primeiras, o que é lógico, por dedução do que tem afirmado Cavaco sobre a terceira opção.

O próprio Cavaco deve sentir-se baralhado com o sucessivo insucesso das suas soluções. O criador da situação em que Portugal se encontra desde que, enquanto governante, destruiu os sectores primários da nossa economia, até que, enquanto Presidente da República e representante do sonho da direita – um Presidente, um Governo e uma maioria – patrocina a destruição do tecido empresarial, o aumento incontrolado do desemprego, a venda ao desbarato dos nossos recursos e o aumento da nossa dívida externa, enredou-se num labirinto que desembocou no atual beco.

Cavaco, fiel representante político das aspirações da direita, alienou as suas responsabilidades de Presidente da República, trocando-as pelas funções modernas de Bobo da Corte, funcionário político dos interesses especulativos. Diz em Portugal o que deveria dizer na Europa, enquanto facilita no país os interesses contrários à nossa soberania nacional. O Bobo do século XXI, tal como o seu homólogo medieval, não é bobo, tem a missão de divertir a chancelaria, enquanto adormece o povo.

O criador quer desresponsabilizar-se da tragicomédia em que mergulhou Portugal. No seu papel de Bobo da Corte, tenta encostar os partidos da “troika” à parede e acena ao PS com a cenoura de eleições antecipadas em 2014, a tal antecipação que o próprio diz não defender. Mas a estratégia não foi atingida face às táticas erradas e aos interesses pessoais e partidários envolvidos.

O PSD agarra-se desesperadamente a este governo e manda recados a Cavaco e ao CDS quanto à necessidade de manter coesa a coligação, porque sabe, de antemão, que nas urnas sofreria pesada derrota.

O CDS, como é seu apanágio, vai dando o dito pelo não dito, revogando o irrevogável, e acusando agora o PS de apresentar propostas que o próprio CDS, há poucos dias, defendia e que motivaram o pedido de demissão de Paulo Portas.

A direção do PS aproveitou o ensejo para tomar o pulso às suas bases. Declarou de imediato que não é pressionável. Sem referir que tipo de pressões rejeitava, jogou nos dois campos, oscilando entre a recusa do acordo de direita e um não desejado entendimento à esquerda. O coro de ameaças vindas de “pesos pesados” e do interior do seu próprio partido deram a indicação a Seguro. Como sempre, nestas situações, o PS optou pela zona cinzenta, numa perspetiva calculista de que o governo cairá de podre, não se preocupando com a situação do país, mas, unicamente com os interesses eleiçoeiros do seu partido.

O não pressionável Cavaco sente-se pressionado por todos os lados e terá que engolir algum sapo, provavelmente a remodelação que recusou, ninguém sabe. Mas, perante esta encruzilhada - com opções de “salvação” invariavelmente infrutíferas - há uma alternativa: a sua renúncia ao cargo, por incompetência ou por incapacidade, para mim tanto faz.

 

Publicado no jornal "INCENTIVO" (Jul/2013)



publicado por livrecomoovento às 01:22
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Segunda-feira, 15 de Julho de 2013
O Povo aguenta, mas tudo tem um limite

Vi, no youtube, as várias gravações que existem sobre a última manifestação nas galerias da Assembleia da República.

Vi homens e mulheres, de várias idades, provavelmente pessoas que têm família, nas suas múltiplas formas que a sociedade portuguesa permite. Mas são pessoas que resolveram prescindir do seu tempo para ir até à Casa da Democracia e aí desenvolver uma ação de protesto. Ora é sobre isto que eu gostaria de discorrer. 
É sabido que o acesso às galerias da Assembleia da República é livre de se fazer, sempre que decorrem trabalhos parlamentares. Isto porque a ação dos deputados é pública e exatamente por isso o Povo pode e deve estar presente. Com uma ressalva, não pode interferir, ou perturbar o trabalho dos deputados, aqueles que o Povo elegeu. E não só se compreende a ressalva como é um princípio que se terá de defender.
Em trinta e cinco anos do novo período constitucional, de 1976 a 2011, podem contar-se pelos dedos das mãos, das duas mãos e dos dois pés, o número de vezes em que os trabalhos foram interrompidos devido a protestos oriundos das galerias. O que me faz pensar que o Povo é bastante sereno apesar de ver muitas vezes a aprovação de normas que lhe tolhem os seus Direitos. Prova disso, foi o último ano em que muitos dos Direitos foram postos em causa, em nome de algo como “a confiança dos mercados”, ou as “taxas de juros”, ou “credores”. O Povo aguentou tudo: despedimentos, falências, aumento da carga fiscal, diminuição de indemnizações, aumento de horas de trabalho, diminuição das percentagens pagas por trabalho extraordinário, aumento das taxas moderadoras na saúde, suspensão ou diminuição de amortizações em sede de IRS com gastos na saúde, no ensino, nos juros da habitação permanente, e por aí adiante. O Povo viu o colega perder o emprego, o vizinho fechar as portas do seu negócio, os filhos dos amigos a partirem à procura de trabalho no estrangeiro. O Povo continua a abrigar os seus filhos na sua casa, apesar de já terem idade para viver autonomamente mas a precariedade do emprego deles a isso obriga, enquanto os seus pais evitam aviar toda a receita de medicamentos porque a pensão é pequena e não dá para o essencial, para a sobrevivência. E o Povo ainda assiste às PPP’s, aos SWAPs e às nomeações para os gabinetes ministeriais de assessores especialistas acabadinhos de sair das faculdades e das juventudes partidárias. E o Povo aguentou. Tudo. Até há uns meses. Porque os deputados da maioria foram demasiado longe na sua arrogância de se julgarem eleitos e de se saberem das elites. Ser-se deputado não é uma profissão. Ser-se deputado é ser-se representante do Povo, é defender a Constituição de 1976, que este Povo em 1975 pensou ser aquela que melhor traduziria o seu sentir. É defender a Constituição que tem sido sucessivamente revista ampliando os Direitos, Liberdades e Garantias. 
As galerias de S. Bento não foram ocupadas por “carrascos”, como expressou a segunda figura do Estado. O Povo tem sido muito sereno e sacrificado. Mas há limites que já se desenham e é preciso evitar atingi-los. O protesto nas galerias de S. Bento quis libertar de carrascos os lugares destinados aos representantes do Povo! Apenas isso.


Da autoria do meu amigo de longa data, Rui Pinto Almeida (Só o título é que é meu). 



publicado por livrecomoovento às 01:02
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Segunda-feira, 8 de Julho de 2013
TRAPAÇAS E TRAPALHADAS

 

“Quando os lobos uivam”

Aquilino Ribeiro

ou

“Quando os bobos uivam”

Onésimo Teotónio Almeida

 

O paralelismo entre a obra de Aquilino que relata a revolta dum povo contra a usurpação fascista dos baldios que serviam as populações beirãs e o recente livro de estórias de Onésimo que ridiculariza, ao mesmo tempo que denuncia, as trapaças que os bobos engendram à nossa volta, obriga-me a meditar sobre a atual situação política portuguesa.

O que menos preocupa os bobos, nesta trapalhada governativa, são as consequências nefastas que recaem sobre quem trabalha. O que move estes figurões são, por um lado, as ordens dos nossos especuladores e, por outro, o protagonismo pessoal pela forma como cada qual melhor consegue prolongar esta agonia dum povo.

A confusão entre o que significa político hábil e político habilidoso sugere o paralelismo entre o sentido de oportunidade e o oportunismo político. Para nossa infelicidade, somos governados por bobos oportunistas e lobos habilidosos que tentam fazer passar-se por políticos hábeis e com sentido de oportunidade.

A promiscuidade entre os interesses e medos dos bobos e lobos no poder conduziria, infalivelmente, ao entendimento. Não porque o bobo tenha recuado na sua teimosia, ou o lobo dado o dito por não dito, mas porque entre “swaps” e submarinos, venha o diabo e escolha, para além do envolvimento BPN e a Aldeia da Coelha preocuparem os bobos e a falta de explicações sobre o financiamento obscuro de determinado partido não interessar aos lobos.

Na realidade, o interesse comum é cumprir os desígnios dos nossos especuladores, empurrando para a frente os verdadeiros problemas que nos conduziram a esta situação, numa tentativa de fazer com que passem ao esquecimento, enquanto aguardam um clima favorável que branqueie esta cumplicidade.

Desengane-se quem pensa que o bobo conseguiu convencer o lobo. Quem sai a ganhar de toda esta trapalhada é o habilidoso que, de forma oportunista, passa a ter o domínio das finanças e da economia, numa conjuntura europeia que tende a recuar nalgumas obsessões face aos resultados nefastos das políticas impostas.

O lento, mas progressivo, reconhecimento da necessidade de dinamizar a economia, sob pena de nem os especuladores terem onde ir sacar dinheiro, vai facilitar o surgimento dalguns resultados macroeconómicos positivos. O populismo oportunista a que o lobo já nos habituou fará o resto.

O objetivo foi atingido pelo lobo: o protagonismo das finanças, da economia e da negociação com os especuladores. Nas finanças, os submarinos dominam os “swaps”; a economia, depois de bater no fundo, só pode estar obrigada a crescer; a capacidade de argumentação com os especuladores está facilitada pela conjuntura internacional.

O bobo demonstrou a sua incompetência e saiu a perder, o que não me preocupa. Mas quem continua a perder é quem, não sendo bobo nem lobo, à margem das trapalhadas, sofre as pesadas consequências das trapaças.

 

Publicado no jornal "INCENTIVO" (Jul/2013)



publicado por livrecomoovento às 01:43
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