Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010
PAPÕES E MERCADOS, FANTASMAS E ESTABILIDADE

Na meninice da maioria de todos nós era habitual “meterem-nos medo com os papões”. Ora esses ditos eram umas personalidades escondidas nos sótãos e atrás das portas, mas que, a qualquer momento nos podiam engolir num “abrir e fechar de olhos”. “Por isso, meus meninos, vamos lá a ser bonzinhos, comer a sopinha toda, obedecer ao paizinho e à mãezinha, não dizer “nomes feios”, fazer tudo como o Senhor Padre diz e não faltar à catequese”.

Era assim que nos educavam, na paz do terror, numa tentativa de evitar “carolos”, “puxões de orelhas” e algumas “taponas” nos mais descarados. Mesmo assim, era quase impossível evitar o vime de marmeleiro nas pernas dos “espertinhos” e uma “surr(e)ada”, com o lado da fivela do cinto, “pelo lombo abaixo”, quando, mais crescidotes, teimavam em ser desobedientes e corriam o perigo de se tornar em “bandidos”.

Agora, porque já não acreditamos nos tais “papões”, inventaram uma nova forma de nos aterrorizar; passaram a chamar-lhes “mercados”. A princípio foi uma grande confusão nalgumas das nossas cabeças, habituadas a associar a palavra ao conceito do sítio onde se podem comprar as couves, a fruta e até mesmo o peixe, fresquinhos, vindos directamente da terra do produtor e da lancha do pescador.

Mas, afinal, mercados, são as tais criaturas escondidas que, a qualquer momento, continuam a nos poder engolir, bastando para tal alterar a taxa de juro e “mexer” no nível do “rating”. Quando falam em juro, nós percebemos, porque sabemos o quanto nos vão tramar com o aumento da prestação da casa. Porém, essa do “rating” é que nos deixa mesmo preocupados por não termos bem a certeza do que possa representar para o futuro.

Era hábito dizer-se que, nesta vida, andava meio mundo a enganar o outro meio mundo. Tal já não é verdade. A parte que engana é cada vez menor, mas como açambarcou mais poder, mantém aterrorizada a parte cada vez maior. Talvez seja por isso que já não é necessário inventar alternativas aos “puxões de orelhas”, ao vime e à fivela do cinto para “domar” os mais casmurros, teimosos e malcriados. Esses, cada vez mais se diluem na massa amorfa que reclama, mas nada faz, aterrorizada, sem coragem, apenas na esperança que outros o façam.

Cá para mim, “papões” e “mercados”, não passam de autênticos “mamões” que descobriram novas formas de nos manter no terror pela ignorância. Cabe-nos a missão de ser corajosos, arrojados e irreverentes, mas eficazmente responsáveis pelos nossos destinos.

Se, em relação aos “papões”, nos tentavam “meter medo”, quando se tratava de fantasmas incutiam-nos a ideia de que eles só existiam na nossa cabeça. “É a imaginação do menino que inventa essas coisas”. São pensamentos que nos acompanham, preocupações que nos fazem “ver coisas”. O que me parece estranho é o facto de, antes, nos quererem demover desses delírios e, agora, nos tentarem impingir essas criaturas invisíveis a que deram um novo nome: Estabilidade.

Então, tudo se faz em nome do fantasma da estabilidade. Cortes orçamentais na saúde, em nome do fantasma estabilidade. Congelamento de salários, em nome do fantasma estabilidade. Cortes nas pensões de miséria, em nome do fantasma estabilidade. Cancelamento de investimentos públicos, em nome do fantasma estabilidade. (Tudo…), em nome do fantasma estabilidade.

Mas afinal quem é esta criatura invisível e a quem serve? À maioria de quem trabalha e vive do seu salário, ou quem sempre trabalhou e vive apenas da sua reforma, não é de certeza porque estes sentem que a sua vida está cada vez mais instável e o seu futuro muito incerto. Restam os que são, cada vez em menor número, mas cada vez mais poderosos. No entanto, estes não têm medo de “papões” nem acreditam em fantasmas. São os beneficiários do “mercado” e da “estabilidade”.



publicado por livrecomoovento às 10:37
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