Domingo, 6 de Fevereiro de 2011
O DIREITO DE DECIDIR O SEU DESTINO

A 27 de Janeiro de 2011, a estação de TV Al Jazira informava que “o Mundo Árabe estava em chamas”. O rastilho da Tunísia, a Revolução do Jasmim, expulsou um ditador apoiado pelo Ocidente. Na Tunísia, o movimento espontâneo pela democracia foi dirigido contra "um estado policial, com pouca liberdade de expressão ou de associação, e graves problemas de direitos humanos". A família do ditador que tem governado era odiada pela sua corrupção.

As repercussões estenderam-se pela zona e a principal “preocupação” do Ocidente está no Egipto, onde a população veio para a rua e, à semelhança do nosso 25 de Abril, está a conquistar o coração dos militares.

Num momento em que os aliados ocidentais perdem a sua influência, alguns observadores tentam comparar estes acontecimentos com a queda dos domínios russos, mas há diferenças muito acentuadas. A única semelhança tem a ver com o que se passou na Roménia, onde os americanos deram o seu apoio a Nicolae Ceausescu, o mais sanguinário ditador dos países do Leste Europeu, apoio que só cessou quando se tornou absolutamente insustentável, passando, então, a elogiar o seu derrube e a querer passar uma esponja sobre o seu passado.

A utilização de “testas de ferro” tem sido o padrão habitual. Foi assim com Ferdinand Marcos, Jean-Claude Duvalier, Chun Doo Hwan, Suharto e muitos outros “gangsters úteis”. Também, agora, se desenha o mesmo recurso, no caso de Hosni Mubarak. A esperança actual, juntamente com os esforços de rotina para tentar garantir que o novo regime não se afaste muito do caminho traçado, parece ser o general Omar Suleiman, leal a Mubarak, nomeado vice-presidente do Egipto. Suleiman, o antigo chefe dos serviços de informações, é desprezado pelo povo egípcio, quase tanto, quanto o próprio ditador.

A táctica é sempre a mesma: a democracia só é aceitável quando sirva os objectivos estratégicos dos interesses económicos instalados. Então há necessidade de alertar para todos os perigos extremistas, passando logo um atestado de menoridade política a qualquer país que tente fugir aos tentáculos existentes.

Tudo se justifica em nome do combate aos radicais do fundamentalismo islâmico que o Ocidente, contraditoriamente, tem apoiado militarmente. Mas a ameaça que preocupa os interesses instalados é o medo da independência dos povos árabes face ao domínio capitalista do ocidente.

A história repete-se, com contornos diferentes: No caso de haver agitação, pode ser necessário fazer mudanças tácticas, mas sempre cuidando de reassumir o controlo.

Um povo só pode decidir o seu destino se o fizer de acordo com aqueles de quem se quer libertar. Triste libertação. Por isso ouvimos repetidas vezes que já se faz tarde um novo 25 de Abril em Portugal. O Mundo Árabe já começou a fazer.



publicado por livrecomoovento às 22:59
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