Segunda-feira, 4 de Julho de 2011
ESTADO DE GRAÇA

Ou o prenúncio da desgraça?

Das várias formas de Estado, umas de política governativa, outras de origem psicológica, vive-se, agora, com o novo governo, um chamado Estado de Graça. A novidade desta forma de governar suscita-me uma inevitável reflexão sobre o assunto e se o “E” tem direito a ser maiúsculo.

Fundamenta-se a sua origem no benefício da dúvida, na vontade propagada de fazer bem e melhor, na juventude dos elementos que o compõem e no pressuposto de que pior que o anterior será impossível.

Já conhecemos vários epítetos de Estado. Estado capitalista, Estado socialista, Estado providência, Estado social, o estado a que chegámos, entre outros. Agora, por paralelismo com o fiel acabado de se confessar, também, em política, podemos viver num estado de Graça que, neste caso, não se sabe bem se com Deus, se com o Diabo.

A graça deste estado a que a comunicação social guindou o actual Governo começou a desiludir com o prematuro dissabor do Primeiro-Ministro, derrotado na sua proposta de Fernando Nobre para Presidente da Assembleia da República. É certo que torneou bem a questão mantendo o seu compromisso com o dito, mas demonstrou falta de sentido de Estado e capacidade de antevisão política ao fazer esta proposta, factores imprescindíveis a um governante. Estas carências ficaram demonstradas pela falta de desprendimento pessoal e político do próprio implicado, por este não ter tido o discernimento de, atempadamente, desvincular Passos Coelho daquele compromisso e deste, por não ter assumido a sua responsabilidade de estadista, sobrepondo-a a meros compromissos pessoais, já que a nível partidário não era consensual.

Mas este “estado de graça” volta a desiludir ao tentar aplicar uma medida populista de redução de Ministros quando, na realidade o que se assiste é a um proliferar de Secretários de Estado. Ou seja, cria-se um Governo de Super-Ministros e entregam-se os Ministérios a Secretários de Estado, desconhecendo-se, ainda, os Secretários dos Secretários e as Secretárias destes e daqueles. Esperemos para ver até onde irá a reciclagem de “boys”.

Pelo meio dos corredores, temos ainda a telenovela de Bernardo Bairrão ex Administrador Delegado da “Media Capital” que se despediu de todos porque ia para Secretário de Estado e que, afinal, parece que vai ser desterrado. Motivo? É fácil de adivinhar. Tudo tem a ver com a privatização, ou não privatização da RTP e o coro dos protestadores em surdina que dominam os órgãos de comunicação social. É mais que evidente que os reis das privatizações não querem, neste momento, a privatização da RTP. Mais um concorrente que não se sabe quem vai dominar? NÃO!!! Decididamente NÃO!!! Veja-se a posição dissimulada e hipócrita de Paulo Portas sobre o assunto e facilmente se chega a esta conclusão. Aqui, ao contrário do caso Fernando Nobre, Passos Coelho recuou. Já não estava em causa o compromisso do seu convite, ou outros “valores” mais altos se levantaram? Este pode ser o princípio do fim do seu estado de graça.

Até os comentários do Marcelo começam a cair em desgraça: Primeiro foi a sua garantia e convicção absoluta na eleição de Fernando Nobre para Presidente da Assembleia da República que não se concretizou. Depois foi o seu pomposo anúncio de Bairrão para Secretário de Estado que também falhou.

A discrepância entre os objectivos, o discurso e a prática leva ao descrédito. Na realidade, este Governo tem quatro programas que irá pôr em prática consoante o interesse partidário do momento ou a pressão do interesse financeiro de quem ordena. Um programa claro e implícito, resultante do acordo firmado com a “troika” que todos conhecemos; um programa oculto, resultante das suas verdadeiras intenções que todos desconhecemos, mas que se sabe ir muito além do da “troika”; um programa explícito na sua aplicabilidade, mas semi-oculto nas suas consequências que vai sendo revelado ao sabor das circunstâncias; e um programa enganador, atraente na sua divulgação, mas sem propósito de aplicabilidade nas suas intenções, o programa da sua campanha eleitoral.

Passos Coelho substituiu o “de PEC em PEC” por “de PA (Programa de Austeridade) em PA”, como se não se tratasse do mesmo com outro nome. Lá se esfuma a promessa de não haver medidas a prestações como nos últimos anos, até porque já se vislumbra o próximo PA, com as indicações implícitas e explícitas da necessidade dum Orçamento Rectificativo (PA2/PEC6).

Com o aprofundar da crise, face à já mais que evidente recessão e consequente estagnação da economia que nos impedirá de fazer face aos nossos compromissos com o exterior, temo que este estado de graça do governo, rapidamente descambe para a profunda desgraça das pessoas.



publicado por livrecomoovento às 02:10
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