Domingo, 17 de Julho de 2011
OS DESVIOS COLOSSAIS

Tornou-se recorrente, de governo para governo, o uso do argumento de desvios colossais nas contas para que os respectivos mandantes possam implementar as suas políticas, não como opção dum projecto assumido, mas como se dum recurso sem alternativa se tratasse, deitando-nos, assim, muita poeira para os olhos.

Guterres foi-se embora porque não conseguia controlar os desvios colossais, e foi promovido a Alto-Comissário Europeu. Durão Barroso desistiu porque teve medo dos desvios colossais e foi proposto para Presidente da Comissão Europeia. Santana Lopes, tendo sido demitido por indecente e má figura (pudera! Se continuasse na senda de cortar sobreiros e comprar submarinos iria aumentar os famigerados desvios colossais) não teve direito a “andor”. Sócrates primou pela teimosia, e lá continuou agarrado ao poder, com discursos de esquerda e políticas efectivas de direita, enquanto deu jeito às sanguessugas financeiras, para, depois de cair no completo desencanto externo e interno, resolver ir estudar filosofia para França, agora que lhe tinham tirado o tapete. Talvez consiga finalmente perceber o que se passou.

Nenhum foi capaz de ter uma solução para enfrentar e resolver o nosso problema! Incompetência? Medo? Cobardia? Ou, talvez, outro factor de influência menos digno?

Passos Coelho prometeu que nunca se queixaria das heranças, nem as invocaria para justificar as suas opções políticas (16 de Junho), mas em menos de um mês já mudou de opinião e tudo passou a ser por culpa dos desvios colossais. Achou estúpido, desnecessário e sem sentido um corte no 13º mês (1 de Abril), anunciando-o no trimestre seguinte, por culpa dos desvios colossais. Talvez aspire e esteja a preparar a ida para um qualquer Alto Cargo Europeu (se não houver algum disponível, inventa-se) já que com esta política não vai longe.

O mal está nos excessos do capitalismo! Dizem uns. O problema é a ganância de alguns especuladores! Dizem outros. É a falta de regulação! Argumentam. É a carência de verdadeiros líderes! Lamentam-se. O sistema é bom, mas funciona mal! (…?!). E este coro de lamentadores não enxerga que o problema é político?! Nunca vi uma coisa que funciona mal poder considerar-se boa.

Está em moda o subterfúgio da comparação de quem está mal com quem está pior. Portugal compara-se com a Grécia, dizendo que a nossa situação “não tem nada a ver” com a dos gregos. Até Barack Obama já diz que o problema dos Estados Unidos “não tem nada a ver” com o problema português. Porém, no final de contas, o problema é o mesmo - a especulação financeira - a dimensão é que é outra. Faz-me lembrar a alimentada guerra estúpida entre o pobre e o miserável, em que o primeiro se sente consolado pelo facto do último estar em piores condições, sem ter a noção de que é para lá que também caminha.

Qualquer economista sabe que o aumento de dívida com o intuito de fazer face a juros piora a situação financeira do devedor. Sabe mas não lhe dá ênfase. Porquê?

A moda actual é vociferar contra as agências de notação financeira. Antes, Cavaco Silva dizia que tínhamos que ser muito cautelosos, não falar mal delas porque se poderiam voltar contra nós. Mudou de opinião em tão pouco tempo? Afinal o homem já se engana? Ou será que está com muitas dúvidas?

Quem pensar que essas agências se regem por princípios ideológicos ou morais, engana-se redondamente. Essas instituições sinistras só têm um Deus, o dinheiro, e prestam vassalagem a quem o possa obter por qualquer meio e a qualquer custo, os especuladores financeiros que dominam os mercados. Não é o cumprimento escrupuloso do famigerado acordo que acalma os tais “mercados”, mas a certeza da obtenção efectiva de reembolsos e lucros a curto prazo. São “eles” que o dizem de forma muito clara.

No mínimo, faltou a inteligência de perceber esta premissa. Prevaleceu a ideia de sacar mais dinheiro onde ele já não abunda, deixando de fora os que o obtêm, acumulam e detêm de forma imoral e especuladora.

Passos Coelho preferiu romper o seu programa eleitoral, mas saiu-lhe o tiro pela culatra, os mercados não acreditaram nessa medida e mostraram-lhe isso no dia seguinte. Teve medo de incomodar a clientela que ideológica e financeiramente o suporta. Desprezou quem o elegeu, ansiando por mudança e pensando que pior do que estava era impossível.

Mas como a política de Passos Coelho e Sócrates é a mesma e mais forte, eu cá digo que pior é mais provável que possível.



publicado por livrecomoovento às 19:31
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