Domingo, 9 de Outubro de 2011
O CAPITALISMO TEM PÉS DE BARRO

A maior lavandaria de dinheiro do mundo ameaça falir!
(por Rolando Cardoso)

A Suíça estremece.
Zurique alarma-se.
Os belos bancos, elegantes, silenciosos de Basileia e Berna estão ofegantes.
Poderia dizer-se que eles estão assistindo na penumbra a uma morte ou estão
velando um moribundo.

Esse moribundo, que talvez acabe mesmo morrendo, é o segredo bancário suíço.
O ataque veio dos Estados Unidos, em acordo com o presidente Obama.
O primeiro tiro de advertência foi dado na quarta-feira.
A UBS - União de Bancos Suíços, gigantesca instituição bancária suíça viu-se
obrigada a fornecer os nomes de 250 clientes americanos por ela ajudados
para defraudar o fisco.

O banco protestou, mas os americanos ameaçaram retirar a sua licença nos
Estados Unidos.

Os suíços, então, passaram os nomes.
E a vida bancária foi retomada tranquilamente.
Mas, no fim da semana, o ataque foi retomado.
Desta vez os americanos golpearam forte, exigindo que a UBS forneça o nome
dos seus 52.000 clientes titulares de contas ilegais!

O banco protestou.
A Suíça está temerosa.
O partido de extrema-direita, UDC (União Democrática do Centro), que detém
um terço das cadeiras no Parlamento Federal, propõe que o segredo bancário
seja inscrito e ancorado pela Constituição federal.

Mas como resistir?
A União de Bancos Suíços não pode perder sua licença nos EUA, pois é nesse
país que aufere um terço dos seus benefícios.

Um dos pilares da Suíça está sendo sacudido.
O segredo bancário suíço não é coisa recente.
Esse dogma foi proclamado por uma lei de 1934, embora já existisse desde 1714.
No início do século 19, o escritor francês Chateaubriand escreveu que neutros nas
grandes revoluções nos Estados que os rodeavam, os suíços enriqueceram à custa
da desgraça alheia e fundaram os bancos em cima das calamidades humanas.

Acabar com o segredo bancário será uma catástrofe económica.
Para Hans Rudolf Merz, presidente da Confederação Helvética, uma falência da União
de Bancos Suíços custaria 300 biliões de francos suíços ou 201 milhões de dólares.

E não se trata apenas do UBS.
Toda a rede bancária do país funciona da mesma maneira.
O historiador suíço Jean Ziegler, que há mais de 30 anos denuncia a imoralidade
helvética, estima que os banqueiros do país, amparados no segredo bancário, fazem
frutificar três triliões de dólares de fortunas privadas estrangeiras, sendo que os
activos estrangeiros chamados institucionais, como os fundos de pensão, são
nitidamente minoritários.

Ziegler acrescenta ainda que se calcula em 27% a parte da Suíça no conjunto dos
mercados financeiros offshore" do mundo, bem à frente de Luxemburgo, Caribe ou o
extremo Oriente.

Na Suíça, um pequeno país de 8 milhões de habitantes, 107 mil pessoas trabalham
em bancos.

O manejo do dinheiro na Suíça, diz Ziegler, reveste-se de um carácter sacramental.
Guardar, recolher, contar, especular e ocultar o dinheiro, são todos actos que se
revestem de uma majestade ontológica, que nenhuma palavra deve macular e realizam-se
em silêncio e recolhimento...

Onde param as fortunas recolhidas pela Alemanha Nazi?
Onde estão as fortunas colossais de ditadores como Mobutu do Zaire, Eduardo dos
Santos de Angola, dos Barões da droga Colombiana, Papa-Doc do Haiti, de Mugabe
do Zimbabwe e da Máfia Russa?

Quantos actuais e ex-governantes, presidentes, ministros, reis e outros instalados no
poder, até em cargos mais discretos como Presidentes de Municípios têm chorudas
contas na Suíça?

Quantas ficam eternamente esquecidas na Suíça, congeladas, e quando os titulares
das contas morrem ou caem da cadeira do poder, estas tornam-se impossíveis de
alcançar pelos legítimos herdeiros ou pelos países que indevidamente espoliaram?

Porquê após a morte de Mobutu, os seus filhos nunca conseguiram entrar na Suíça?
Tudo lá ficou para sempre e em segredo...
Agora surge um outro perigo, depois do duro golpe dos americanos.
Na mini cúpula europeia que se realizou em Berlim, (em preparação ao encontro do
G-20 em Londres), França, Alemanha e Inglaterra (o que foi inesperado) chegaram a
um acordo no sentido de sancionar os paraísos fiscais.

"Precisamos de uma lista daqueles que recusam a cooperação internacional",
vociferou a chanceler Angela Merkel.

No domingo, o encarregado do departamento do Tesouro britânico Alistair Darling,
apelou aos suíços para se ajustarem às leis fiscais e bancárias europeias.

Vale observar, contudo, que a Suíça não foi convidada para participar do G-20
de Londres, quando serão debatidas as sanções a serem adoptadas contra os
paraísos fiscais.

Há muito tempo se deseja o fim do segredo bancário. Mas até agora, em razão da
prosperidade económica mundial, todas as tentativas eram abortadas.

Hoje, estamos em crise.
Viva a crise!!!
Barack Obama, quando era senador, denunciou com perseverança a imoralidade
desses remansos de paz para o dinheiro corrompido.

Hoje ele é presidente.
É preciso acrescentar que os Estados Unidos têm muitos defeitos, mas a fraude
fiscal sempre foi considerada um dos crimes mais graves no país.

Nos anos 30, os americanos conseguiram laçar Al Capone.
Sob que pretexto?
Fraude fiscal.
Para muito breve, a queda do império financeiro suíço!


publicado por livrecomoovento às 21:43
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