Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011
Indiferente até chegar a minha vez...(?)

A indiferença

Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde.

Bertolt Brecht

 

Começaram a dizer que o Estado está muito gordo e que era necessário cortar nas suas gorduras. Eu até achei muito bem, porque comecei a pensar nos carros de alta cilindrada, nos jantares faustosos, nas viagens inúteis, nas assessorias externas, no negócios dos submarinos, nas derrapagens orçamentais em obras públicas para beneficiar os amigos, nas Fundações para dar emprego aos correligionários do partido, nas nomeações de juristas, consultores, assessores, secretários e subsecretários, na acumulação de pensões milionárias, nos ordenados indecentes, …; e confesso que concordei.

Ouvi falar que há gente a viver acima das suas possibilidades, e logo me lembrei das mansões de luxo de banqueiros e gestores, com piscinas e campos de ténis, de executivos com vários carros e diversos condutores ao serviço, fatinhos de marca e por medida, iates de recreio para reuniões especiais, suites de hotel com serviço completo; e pensei que, finalmente, alguém iria pôr cobro a este regabofe que leva grande parte dos nossos depauperados recursos.

Começaram a dizer que era necessário reduzir pessoal e cortar nas remunerações dos funcionários públicos; e eu, que desesperava sempre que me dirigia a um serviço público, ainda por cima, para pagar para aqueles malandros terem um ordenado e estarem na conversa, pensei para comigo que era bem feito e senti-me vingado pelo tempo que perdi em longas esperas, antes de ser atendido.

Ouvi agora numa entrevista que estas medidas começaram pela Função Pública, mas vão estender-se, também, à esfera dos privados, e senti-me invadir por um tremendo pavor. Fui abalado na minha indiferença. Como é que eu vou poder continuar a pagar a prestação da casa? Onde vou buscar dinheiro para pagar os estudos dos meus filhos? E se tenho uma doença mais grave e necessitar de dinheiro para me tratar? E agora que vai subir a electricidade e o gás, a água e os transportes?

Começo a perceber que o que passou pelos outros também me vai chegar, mas de forma muito mais dura e não tenho ninguém para me socorrer.

Cortaram em alguma gordura do Estado? Não! Cortaram nos apoios sociais a quem já tem deficientes condições de vida, mas distribuíram dividendos aos accionistas do bancos e nem lhes cobraram impostos. Cortaram nas verbas para a saúde, mas enterraram milhões, pagando às administrações incompetentes que levaram à falência técnica os chamados Hospitais Empresa. Cortaram nos orçamentos para a educação, mas aumentaram os subsídios para as escolas privadas.

Foi implementado algo de concreto para obviar a gastos acima das nossas possibilidades? Não! Continuam a esbanjar dinheiro com o supérfluo e a manter as mordomias dos privilegiados.

Reduziram gastos com a malandragem que oscila entre cargos governativos, administração de empresas públicas e bancos, constando apenas o seu nome, mas trabalho, nada? Não! Pelo contrário, congelaram e reduziram remunerações dos funcionários públicos que ganham como eu, mas continuam a pagar fortunas aos gestores das empresas públicas e prémios de produtividade a quem sucessivamente traz colossais prejuízos para o Estado.

Dispensaram os parasitas que costumam polir as cadeiras ergonómicas em pele dos gabinetes de luxo? Não! Vão juntar Institutos e Fundações para reduzir pessoal. Isso mesmo: pessoal, porque os gestores vão ter o seu lugar assegurado, mesmo que seja fazendo coisa nenhuma. Quem vai para o desemprego são os que, como eu, trabalham nessas instituições.

E, agora que chegou a minha vez?

Vou insultá-los e enterrar a cabeça na areia à espera que nas próximas eleições prometam ter mais dó de mim, mesmo que depois não cumpram?



publicado por livrecomoovento às 01:46
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1 comentário:
De livrecomoovento a 24 de Outubro de 2011 às 01:54
Esta é uma reflexão numa (entre muitas) hipotética 3ª pessoa. É uma proposta de discussão de como temos estado a ser roubados e de como o permitimos, barafustando sem eficácia e desistindo do nosso dever de cidadãos participativos.


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