José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos
(Aveiro, 2 de Agosto de 1929 – Setúbal, 23 de Fevereiro de 1987)
“…São os mordomos do universo todo
Senhores à força, mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei.
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada"
(Os Vampiros – José Afonso)
Passados vinte e cinco anos, sobre o dia em que o Zeca deixou de estar fisicamente em nossa companhia, escrevo esta pequena reflexão com um misto de emoção e revolta.
Emoção pelo que representa este ícone de luta pela liberdade, contra o fascismo, contra o conservadorismo moral, cultural e político. Contra o conformismo “… o que é preciso é criar desassossego, …, agitar, não ficar parado, ter coragem…”.
Revolta porque, calada a voz incómoda, aqueles que o ostracizaram adoçam agora as tensões, esquecem o provocador incómodo, mascaram a perseguição a que o votaram e até o tomam como um exemplo. Tanta hipocrisia! Quanto artifício!
Entre sensações de alívio e tranquilidade balbuciam frases pré concebidas de falsa homenagem, tentando emoldurar a memória dum lutador numa cordialidade institucional que ele sempre rejeitou.
Não posso deixar que o Zeca que conheci pessoalmente em 1974 e a cujo derradeiro concerto ao vivo assisti, no Coliseu dos Recreios, seja absorvido e “domesticado” por aqueles que combateu com tanta convicção, coragem e vigor.
José Afonso foi um dinamizador do inconformismo: “Quando as pessoas param, há como que um pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político, como no campo estético e cultural. E, por vezes, o inimigo somos nós próprios, a nossa própria consciência e os álibis de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta. … Nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de «homenzinhos» e «mulherzinhas». Temos é que ser gente, pá!”.
“…
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta é empurrar a malta
Quando um homem dorme na valeta
Quando dizem que isto é tudo treta
…
O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta é libertar a malta
…
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta é dar poder a malta
…”
Este é que é, e sempre será o Zeca Afonso. Por isso mesmo continua vivo entre os que continuam a sua luta e que, como ele, nunca se deixarão “apanhar” na rede do conformismo.
“Traz outro amigo também”.
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