Domingo, 6 de Maio de 2012
O país humilhado no 1º de Maio

O capital não olha a meios, particularmente em contexto de crise, e boa parte das classes populares está mergulhada no caldo da cultura da pobreza.

Vi um país humilhado no 1º de Maio de 2012. Aquelas imagens de multidões em fúria, procurando o seu quinhão nos “super-descontos”, não pode deixar ninguém indiferente e mostra o estado desolador do movimento popular em Portugal. Não fujo a esta constatação: é o grau zero de consciência e mobilização social. As pessoas estão com enormes dificuldades e grandes carências alimentares: só isso pode explicar o desespero, a quase loucura, o atropelo, o delírio. E a profunda indiferença para com o dia que se comemorava.

Jerónimo Martins quis esmagar a concorrência mas procurou, antes de mais, partir a espinha ao mundo do trabalho. A campanha estava carregada de simbolismo. Não o conseguiu, mas o panorama é tudo menos animador. Em situação de calamidade social e de desemprego galopante não ouso apontar o dedo nem aos trabalhadores do “Pingo Doce” que não tiveram coragem de usufruir do seu Primeiro de Maio, nem aos portugueses que acorreram em grande número às grandes superfícies que, supostamente, “nunca precisam de fazer promoções porque têm preços baixos o ano inteiro”. O moralismo não faz caminho em situações destas. Mas o sucedido ensina duplamente: o capital não olha a meios, particularmente em contexto de crise, e boa parte das classes populares está mergulhada no caldo da cultura da pobreza (que põe pobres contra pobres; vive a sua condição como fatalidade e cultiva o individualismo do «salve-se quem puder»).

Todavia, os partidos de esquerda só podem aqui ter uma posição, mesmo que não seja eleitoralmente rentável: levantar cabeça e recusar a ignomínia daquele “pão” atirado aos pobres. Se não é com caridade ou assistência que se vence a pobreza, muito menos com manobras anti-laborais sujas. É responsabilidade de todos e todas que possuem recursos suficientes para lutar contra esta ignomínia o dever de mostrar que o rei vai nu, de esclarecer, de suscitar solidariedade, de levantar clamor.

 

POR: João Teixeira Lopes - Sociólogo, Professor Universitário



publicado por livrecomoovento às 03:46
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