Segunda-feira, 11 de Março de 2013
PREPOSIÇÕES E ARTIGOS

OU DE COMO A LÍNGUA PORTUGUESA É TRAIÇOEIRA

“Que Cavaco era um leitor atento e exigente já nós sabíamos desde que, para espanto da academia em geral e da academia sueca em particular, criticou os livros de Saramago por terem demasiadas vírgulas. Desta vez, o crítico desviou a sua atenção da pontuação para as preposições. Onde se lê um "de", deve ler-se um "da". Não é apenas a preposição "de" que deve estar na lei, é a contração da preposição "de" com o artigo definido "a". A mudança implica o seguinte: se um presidente "de" câmara não pode recandidatar-se depois de três mandatos, a sua carreira autárquica acaba; mas um presidente "da" câmara não pode recandidatar-se apenas à câmara específica a que preside. Pode recandidatar-se à do lado. Ou a outra qualquer. Há 23 letras no alfabeto, mas Cavaco indicou a única que podia beneficiar os dinossáurios autárquicos.” (Ricardo Araújo Pereira)

 

Entendeu Cavaco Silva que remeter-se à contenção de opiniões era a melhor forma de ajudar o governo a cumprir os seus objetivos. Compreende-se que o pretenso representante de todos os portugueses queira apadrinhar e proteger os seus sequazes políticos. Compreende-se, mas não é aceitável atendendo ao cargo para que foi eleito. Mas, mais inaceitável é ser abusivamente reincidente em atitudes extemporâneas – relembro a gravíssima comunicação ao País sobre o nosso Estatuto Autonómico – sempre numa postura de menorização dos respetivos visados. 

Pode parecer anedótico, não fora a gravidade do assunto, que a criatura interrompa a sua letargia para emitir um parecer que vem, principalmente, favorecer mais alguns dos seus correligionários. É vulgar o uso e abuso destes subterfúgios para absolver criminosos, ilibar corruptos e tornear os meandros da legislação concebida com a intenção de favorecer quem tenha mais poder financeiro. É só mais um aspeto da constante luta pelo poder que os mesmos, sempre os mesmos, os chamados “Donos de Portugal” permanentemente travam para manter o domínio financeiro e político do País.

É vulgar a expressão “a língua portuguesa é traiçoeira” quando, brincando com os múltiplos significantes duma palavra se distorce o sentido duma frase, atribuindo-lhe um significado diferente. Esta faculdade da língua portuguesa permite uma criação literária diversa e intelectualmente rica. Porém, como toda a evolução tecnológica, a linguística pode tornar-se perversa quando usada com deliberada má intenção.

Uma velha anedota refere um indivíduo que, deslocando-se de comboio entre o Porto e Lisboa, tentou entabular conversa com o passageiro a seu lado perguntando-lhe: “O senhor vai para Lisboa?”, a que o referido passageiro respondeu com altivez: “Eu não vou para Lisboa. Eu vou a Lisboa”. O primeiro indivíduo não gostou da resposta e ficou calado, alheando-se do parceiro de conversa. Este, para o rebaixar, pergunta-lhe então: “O senhor ficou pensativo?”, a que o primeiro respondeu: “Estava aqui a pensar se o mandava à fava ou para as urtigas”.

A intervenção de Cavaco Silva na interpretação da lei que regulamenta a recandidatura de presidentes de câmara é, em tudo, semelhante à tradicional anedota, pelo que fico indeciso se devo mandar aquela criatura à fava ou para o raio que o parta.

 

(Publicado no jornal INCENTIVO)



publicado por livrecomoovento às 01:50
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